O Expressionismo Alemão Parte Dois: A Primeira Grande Guerra

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A PRIMEIRA GRANDE GUERRA E O AVANÇO DO EXPRESSIONISMO ALEMÃO

O sentimento angustiante captado pelos artistas expressionistas não demoraria a se confirmar, pois os conflitos e o sentimento de revolta do período, e mesmo a forte associação dos judeus ao capitalismo, considerado por alguns como responsável pela discrepância entre os poderes aquisitivos, culminariam na guerra em pouco tempo.

As supostas pesquisas antropológicas sobre a soberania de certas nacionalidades sobre as outras chegou ao seu ápice e

“finalmente, em 1914, os diversos conflitos políticos gerados pela afirmação das nacionalidades desembocaram na Primeira Grande Guerra – uma conflagração ansiada por toda a Europa” (NAZÁRIO, 2002, p. 23)

Os sentimentos nacionalistas encheram os corações dos jovens e a guerra parecia ser um dever e orgulho nacional, porém sua longa duração surpreendeu os alemães, principalmente com intervenção dos Estados Unidos no combate, após uma tentativa de bloqueio dos alemães à Inglaterra. Eles “que previam uma vitória em três meses de combate, começaram a desesperar, pressionados, sobre tudo pela fome” (NAZÁRIO, 2002, p.24).

Em 1918 a Alemanha se sujeita a forças Aliadas finalizando a Primeira Grande Guerra, porém suas conseqüências seriam infaustas, pois o país sairia endividado, com menor território geográfico e com um número de soldados limitado.

A partir de então foi instaurada a República Weimar, estabelecida na cidade de Weimar, longe dos conflitos de Berlim, perdurando até que os nazistas tomassem o poder.

A República Weimar também seria angustiante para o povo alemão, pois apesar do governo tentar reestruturar o país com fortes investimentos em infraestrutura e na qualidade de seus produtos industriais, o sentimento de que a Alemanha não havia sido derrotada e que os países Aliados haviam usurpado território alemão, alimentava forças políticas extremistas as quais levariam, alguns anos mais tarde, a tomada do poder pelos nazistas sob o comando de Adolf Hitler.

Nesta fase em que a Alemanha tentava se restabelecer, e mesmo durante a guerra, os artistas expressionistas se voltaram para seu país, desenvolvendo um forte sentimento nacionalista e, se antes da guerra eles buscaram referências nas vanguardas do mundo para estabelecer uma nova linguagem estética, agora, com ela já definida, era preciso se posicionar politicamente.

As obras nesse período buscavam informar os sentimentos da nação como se ela mesma fosse um artista que precisava demonstrá-los para seus expectadores.

No período pós-primeira-guerra o movimento expressionista transcende as obras pictóricas e avança ainda mais sobre outras áreas para que o “espírito” e desejo alemão por uma sociedade mais justa, pudesse se fazer presente nos diversos segmentos da sociedade.

Isso levou ao amadurecendo das características dessa escola, que primava pela verdade do artista ao expressar sinceramente seus sentimentos por meio da utilização consciente e objetiva de formas, materiais e cores.

Na arquitetura, por exemplo, desenvolve-se uma série de acontecimentos que resultaram no nascimento da escola Bauhaus, uma das maiores influências para o design até os dias de hoje.

Apesar de o expressionismo estar presente em obras da arquitetura mesmo antes da Primeira Grande Guerra, como, por exemplo, no Pavilhão de Vidro arquitetado por Bruno Taut, somente depois da guerra o envolvimento arquitetônico com o expressionismo alemão se tornará totalmente coeso.

É importante observar que o vidro presente no prédio de Taut, observado na figura 1, utilizou-se de vidros, pois a transparência representava figurativamente a sinceridade, a pureza e a construção de uma nova sociedade menos materialista e mais honesta, íntegra e justa, um conceito de utopia tipicamente expressionista.

Pavilhao de Vidro - Bruno Taut
Figura 1: Pavilhão de Vidro – Bruno Taut

Em 1918 é fundado o grupo Novembergruppe (Grupo de Novembro) e o Arbeitsrat für Kunst (Conselho de Trabalho para a Arte), ambos com fortes ligações a posições políticas de esquerda, sendo liderados por arquitetos que formariam a escola Bauhaus, instituição que manteria estreitas relações com a poética expressionista, porém apresentaria certa dualidade ao inserir também uma forte racionalidade em sua estrutura.

Estes grupos se esforçaram para promover o conceito de arte do movimento expressionista, aplicando-o às suas diversas produções, que transcendiam a própria concepção de arte do período, como podemos observar em materiais gráficos da publicação do Novembergruppe de 1921, figura 2, e no folheto do Arbeitsrat für Kunst, figura 3.

Novembergruppe
Figura 2: Novembergruppe
Arbeitsrat für Kunst
Figura 3: Arbeitsrat für Kunst

Neste período os artistas construíram uma posição social definida aliando-se à política esquerdista, desejando transformar a arte expressionista num canal definitivo para denuncia e para interferência na sociedade alemã, que sofria os males da Primeira Grande Guerra.

Portanto podemos observar que a verdadeira beleza da arte expressionista era considerada a verdade, transparência e pureza dos sentimentos expressados, além de sua missão social mais abrangente. Isso estava acima de obras que representassem o belo alegre, feliz ou esteticamente agradável.

O cinema se apresentou então como um excelente meio para a representação utópica expressionista, uma vez que a união da mise-en-scène com a música permite composições singulares para representar e provocar sensações e sentimentos, além de poder alcançar mais as pessoas.

É sobre o cinema, a música e o declínio do expressionismo que falarei a seguir.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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FERNANDES, Fernanda. “A Arquitetura do Expressionismo” in: GUINSBURG, J. (org.) O Expressionismo. Ed. Perspectiva S.A., São Paulo, 2002.
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REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS

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