O Expressionismo Alemão Parte Três: Cinema, música e o declínio

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O CINEMA, A MÚSICA E O DECLÍNIO DO EXPRESSIONISMO

Dentro da indústria cinematográfica O Gabinete do Dr. Caligari (1919), de Robert Wiene, é o maior representante do expressionismo alemão. Sua construção sombria de temática nefasta, com cenários e iluminação irreais, maquiagem e atuações exageradas compunham uma história macabra onde os personagens vivenciavam sentimentos confusos e de cólera contra a autoridade, resultando em “uma obra que realizava a proposta expressionista de traduzir visualmente conflitos emocionais” (CÁNEPA, 2006, p. 67).

Em um momento em que a indústria cinematográfica alemã buscava se diferenciar do cinema mundial, principalmente o americano, buscou-se produções artísticas de alta qualidade e a poética expressionista foi fundamental nessas produções.

Segundo Cánepa (2006), Dr. Caligari se tornou um norteador para muitas obras do cinema que viriam a seguir tais como A Morte Cansada (1921) de Fritz Lang; e Nosferatu: Uma Sinfonia do Horror (1922), de Friedrich Wilhelm Murnau, todos eles dotados das características do filme de Robert Wiene.

Porém definir claramente um estilo de cinema expressionista não é tarefa fácil uma vez que, ainda de acordo com Cánepa (2006, p. 69) “mesmo que seja possível delinear algumas estratégias visuais e narrativas em um grande número de filmes, tem-se a impressão de incompletude e generalização quanto à classificação de ‘Expressionismo’”, suas características flutuam entre composição cinematográfica (mise-en-scène), estrutura dos personagens e composição da narrativa, dos dramas e dos fatos.

Cada elemento do filme expressionista era pensado conscientemente e retirado tudo o que não tivesse um propósito, essa filosofia expressionista fica clara nas palavras de Hans Janowitz acerca do Dr. Caligari:

“Não se permitiria nada, nada mesmo, que fosse desnecessário; palavras e imagens tinham de coincidir perfeitamente. A colocação de cada palavra devia ser decidida de acordo com a importância da impressão visual que ela estava destinada a criar” (ROBISON, 2000 apud CÁNEPAGA, 2006, p. 77)

As características sombrias de luzes irreais e deformações do cenário do expressionismo podem ser vistas nas cenas do Dr. Caligari, como na figura 1 e 2. O filme se apresenta como se um quadro do expressionismo alemão tomasse vida e enredo, nos contando, então, mais detalhes de sua história.

O Gabinete do Dr. Caligari
O Gabinete do Dr. Caligari
O Gabinete do Dr. Caligari
O Gabinete do Dr. Caligari

A música dramática do filme lhe concede ainda mais personalidade expressionista. Sua composição apresenta uma tensão angustiante como se algo de ruim fosse acontecer a qualquer instante, nos fazendo esperar pelo momento em que tudo dá errado e as coisas se complicam definitivamente.

Essa sensação, característica nas obras artísticas expressionistas, fica ainda mais evidente musicalmente na obra do compositor Austríaco Arnold Schoenberg, que, inclusive, foi amigo de pessoal de Kandínski.

Ele próprio foi um vanguardista que buscou renovar as composições musicais desenvolvendo, em 1920, o Dodecafonismo, um sistema de relação e hierarquia entre 12 notas musicais seriadas, que seria utilizada por outros compositores como Anton Webern e Milton Babbitt.

Sua obra Fünf Orchesterstücke (Cinco Peças para Orquestra) Op 16, de 1909 é uma construção atonal, característica fortemente relacionada à música expressionista, dotada de forte tensão e angustia.

A partir de 1924 começa a haver um declínio nas produções cinematográficas expressionistas e em 1925 ocorre o “enfraquecimento do movimento expressionista na Alemanha” (GUINSBURG, 2002, p. 735).

Em 1933 Adolf Hitler se torna chanceler e acaba com a República Weimar dando início ao poder nazista e em 1939 tem início a Segunda Grande Guerra. As transformações desse período iriam modificar ainda mais a consciência artística no mundo.

O expressionismo, considerado pelos nazistas como uma arte degenerada, iria ser condenado na Alemanha de Hitler e os artistas expressionistas, no exílio, iriam reavaliar sua própria arte e criação.

Mesmo as críticas sofridas anteriormente por artistas de outros movimentos, como os Dadaístas, que acusavam o movimento de se “vender” comercialmente, perdendo sua verdade artística (que era considerado o mais importante nas obras expressionistas), colocavam o expressionismo em um momento de autocritica.

O movimento nunca perderia sua importância e poder referencial, sendo revisitado em artigos como o do crítico Harald Rosemberg em 1952, ao avaliar os novos expressionistas e onda neoexpressionista de 1980, com trabalhos de Rainer Fetting, Bernd Zimmer e Salomé.

É realmente notável que os expressionistas marcaram sua ousadia e qualidade de produção na história da arte e também do design, e se tornaram fonte de referência para produção, execução de projetos desde então.

Considero suas obras também motivadoras e balizadores para avaliarmos criticamente nosso próprio tempo, nossas produções e a forma como o representamos nosso mundo (interno e externo).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEHR, Shulamith. Expressionismo. 2. ed. São Paulo: Cosac e Naify, 2001.
BRILL, Alice. “O Expressionismo na Pintura” in: GUINSBURG, J. (org) O Expressionismo. Ed. Perspectiva S.A., São Paulo, 2002.
CÁNEPA, Laura Loguercio. “Expressionismo Alemão” in: MASCARELLO, F. (org.) História do Cinema Mundial. Ed. Papirus, São Paulo, 2006.
CARDOSO, Rafael. Uma Introdução à História do Design. 2. ed. São Paulo: Edgard Blücher, 2004.
FERNANDES, Fernanda. “A Arquitetura do Expressionismo” in: GUINSBURG, J. (org.) O Expressionismo. Ed. Perspectiva S.A., São Paulo, 2002.
FRANÇA, Maria Inês. “A Inquietude e o Ato Criativo: Sobre o Expressionismo e a Psicanálise” in: GUINSBURG, J. (org.) O Expressionismo. Ed. Perspectiva S.A., São Paulo, 2002.
MASON, Antony. No Tempo de Picasso: Os Fundamentos da Arte Moderna. São Paulo: Callis, 2004.
MASON, Antony. No Tempo de Renoir: A Era Impressionista. São Paulo: Callis, 2009.
MATTOS, Cláudia Valladão de. “Histórico do Expressionismo” in: GUINSBURG, J. (org.) O Expressionismo. Ed. Perspectiva S.A., São Paulo, 2002.
NAZÁRIO, Luiz. “Quadro Histórico” in: GUINSBURG, J. (org.) O Expressionismo. Ed. Perspectiva S.A., São Paulo, 2002.

REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS

BLANCHARD MODERN ART. Blog que discute e apresenta a arte moderna. Disponível aqui. Acesso em 19 de maio de 2011.
CENTRO DE RECURSOS. Álbum “Fauvismo, Expressionismo” do Centro de Recursos. Disponível aqui. Acesso em 19 de maio de 2011.
KETTERER KUNST. Website de Leilões de Artigos da Arte. Disponível aqui. Acesso em 19 de Maio de 2011.
MAIS ARQUITETURA. Website sobre Arquitetura. Disponível aqui. Acesso em 19 de maio de 2011.

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