Os 5 métodos para organizar informações propostos por Richard Saul Wurman

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A quantidade de dados produzidos por nós, seres humanos, vem crescendo em um ritmo acelerado e, ainda bem, uma grande parte desses dados (se não todos eles) está disponível na rede mundial de computadores, democratizando assim o acesso ao conhecimento produzido em qualquer parte do mundo.

Porém, em paralelo com essa maravilha que é ter uma quase imensurável quantidade de dados disponíveis, está a opressora sensação de sufoco e incapacidade que experimentamos ao nos depararmos com a difícil tarefa de explorar esse conteúdo ou mesmo uma pequena parte dele.

Focados nisso, muitos estudiosos vem apresentando técnicas e metodologias para organizar e apresentar esses dados de forma a facilitar a navegação através deles. Desse modo, eles vêm buscando meios de garantir caminhos mais rápidos, prazerosos ou interessantes para as pessoas encontrarem o que buscam ou necessitam.

Um desses profissionais, Richard Saul Wurman, apresentou em dois livros (referências abaixo), uma teoria que é a pedra angular para muitos dos trabalhos em design de informação (também conhecido como arquitetura de informação), uma especialidade que tem como objetivo construir caminhos mais simples para as pessoas navegarem em meio ao mar de informações do contemporâneo.

O autor argumenta que informação, acima de tudo, deve levar à compreensão, mas, além disso, o trabalho do designer de informação é auxiliar para que essa compreensão seja fácil, rápida e até prazerosa tendo como base, objetivos previamente definidos.

Tomando como base os textos de Vilém Flusser, relembramos o sentido mais etimológico da palavra informação, que tem sua origem no latim informatio definido como “formar em”, ou ainda, “dar forma a” (in + forma).

Segundo o filósofo, o processo de informação possui uma estreita relação com a aculturação do homem, ou seja, é o fato de vivermos em meio e por meio da cultura que torna necessário que informemos aquilo que nos rodeia. Os textos de Flusser propõem que antes de ser informado, tudo não passa de uma massa amorfa, logo,

o mundo dos fenômenos, tal como o percebemos com os nossos sentidos, é uma geleia amorfa, e atrás desses fenômenos encontram-se as formas eternas, imutáveis, que podemos perceber graças à perspectiva suprassensível da teoria (FLUSSER, 2010, p. 23).

Ainda seguindo essa linha de raciocínio, podemos compreender que formalizar esses fenômenos é conceder-lhes um significado cultural, ou seja, é por meio da formalização que aculturamos o “mundo” fazendo este se tornar humano.

Somando-se isso ao argumento que informação deve levar a compreensão, podemos verificar que a informação só será plena, nesse sentido, quando seu desenvolvimento for compatível com a cultura para qual foi projetada e daí a importância de reconhecermos a cultura em projetos do design de informação.

Partindo disso, podemos observar que os mais variados aspectos da cultura podem e devem ser utilizados como meio para melhorar a informalização, contribuindo para a plena realização de formas eficientes e eficazes.

A organização e classificação, por exemplo, com as quais nos acostumamos desde nossos primeiros contatos com o processo de aculturação podem ser excelentes ferramentas para desenvolver melhores informações. Dessas, talvez a mais corriqueira em nossa cultura ocidental seja a organização alfabética, que aprendemos desde o jardim de infância e nos acompanha por toda a vida.

Além dessa, Wurman apresenta mais quatro formas de organizar coisas que contribuem no processo do design de informação e em seu objetivo de proporcionar a compreensão mais fácil, rápida e prazerosa das informações, tendo como base, metas previamente definidas.

Essa organização, claro, não é todo o projeto para melhorar a navegação em meio ao volumoso conteúdo do contemporâneo, principalmente no meio digital, porém ela é uma importante etapa e pode ser adotada como um primeiro passo no desenvolvimento desse tipo de projeto.

Para exemplificar os cinco métodos de organização de Wurman, eu selecionei a publicação do IBGE no Diário Oficial da União da última quinta-feira (29/08/2013), que apresentou números sobre a quantidade populacional do Brasil.

Para facilitar a apresentação de um dos métodos, adicionei um campo chamado “Ano de Fundação”, representando o ano de fundação de cada Estado brasileiro, porém, por se tratar de dados somente para ilustrar o método, eu considerei apenas datas a partir da Proclamação da República (15 de novembro de 1889).

Veja a tabela a seguir, organizada da mesma forma que está no Diário Oficial da União:

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Vou apresentar agora os cinco métodos de Wurman, a partir desse conteúdo.

1. ALFABETO

Essa modalidade de organização é excelente, pois, como aprendemos sua estrutura desde a primeira educação, tratamos esse modelo como natural, apesar de ser puramente cultural.

Wurman o apresenta da seguinte forma,

Este método presta-se muito bem para grandes conjuntos de informação, como as palavras de um dicionário ou os nomes de uma lista telefônica. Como a maioria decorou as letras do alfabeto, a organização alfabética da informação funciona quando o público ou os leitores abrangem um amplo espectro da sociedade que talvez não admitisse a classificação por outra forma, como categoria ou localização (WURMAN, 1991, p. 67).

A tabela do IBGE, caso utilizasse esse método, ficaria da seguinte forma (observe a segunda coluna):

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Podemos observar que seria muito mais fácil e rápido encontrar seu Estado e saber o tamanho da população. Esta, inclusive, foi a regra que utilizei para apresentar os cinco métodos que Wurman explora.

2. CATEGORIA

Esse tipo de organização apresenta o maior risco de todas as cinco formas, pois as categorias não são definidas de forma tão consensual entre as pessoas.

A categorização pode ser feita basicamente de duas maneiras, ou o designer de informação as define empiricamente, o que pode dar muito errado, ou ele pode lançar mão de técnicas para que os clientes criem essas categorias (como, por exemplo, o card sorting), garantindo uma menor margem de erro de interpretação das categorias.

Wurman apresenta a categorização da seguinte maneira:

Refere-se à organização dos bens. Lojas de varejo são normalmente organizadas desta forma, por tipos diferentes de mercadoria, ou seja, artigos de cozinha em um departamento e roupas em outro. A categoria pode significar diferentes modelos, diferentes tipos ou até mesmo diferentes perguntas a serem respondidas, como num folheto dividido em perguntas sobre uma empresa. Este modo presta-se bem para organizar itens de importância similar. A categoria é bem reforçada pela cor, ao contrário dos números, que possuem valor intrínseco (WURMAN, 1991, p. 66).

Para os dados do IBGE, eu escolhi trabalhar com algo já existente e aplicado pelo próprio órgão, que são as chamadas regiões brasileiras. Seguindo esse modelo, a tabela ficaria desse modo,

métodos para organizar informações

Devido a características particulares desse conteúdo, essa forma pode ser considerada mais difícil que a primeira, mas isso não é uma regra.

3. LOCALIZAÇÃO

Esse tipo de organização tem ganhado muito destaque, principalmente com o crescimento de recursos visuais possíveis de serem aplicados na apresentação dos dados (assunto para uma próxima postagem).

Wurman apresenta essa modalidade da seguinte maneira:

É a forma natural de escolher quando você está tentando examinar e comparar informação vinda de diferentes fontes ou locais. Se estiver envolvido com um ramo industrial, por exemplo, pode interessar-lhe o modo como ele se distribui pelo mundo. Médicos usam as diferentes localizações do corpo como agrupamentos para estudar medicina. (Na China, os médicos usam manequins em seus consultórios para que os pacientes possam apontar o local específico de sua dor ou problema) (WURMAN, 1991, p. 67).

Para localização escolhi brincar com as linhas latitudinais. A tabela do IBGE ficaria assim:

métodos para organizar informações

Algo importante aqui, por se tratar de uma informação em tabela eu também utilizei a organização alfabética para facilitar. Talvez ao primeiro olhar essa pode não parecer uma forma muito interessante para organizar, porém, como já dito, essa modalidade se torna ainda mais atraente em outros formatos visuais, em uma próxima postagem farei essas comparações e isso ficará bem aparente.

4. SEQUÊNCIA

A organização por sequência é excelente para diversas situações, eu gosto muito dela em situações como precificação e dados estatísticos.

Wurman apresenta essa categoria da seguinte maneira:

Organiza os itens por ordem de grandeza – do menor ao maior, do mais barato ao mais caro -, de importância e etc. É o modo ideal quando se deseja conferir valor ou peso à informação, querendo usá-la para estudar algo como um setor industrial ou uma empresa (WURMAN, 1991, p. 67).

A tabela do IBGE ficaria da seguinte maneira, caso estivesse organizada por sequência (observe a coluna três):

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Obviamente, esse conteúdo poderia ser do maior para o menor também.

5. TEMPO

Há diversas maneiras para organizar dados por tempo, para essa apresentação eu inseri o ano de fundação do Estado a partir da Proclamação da República.

Wurman apresenta essa modalidade assim:

O tempo funciona melhor como um princípio de organização para eventos que ocorrem em intervalos fixos, tais como convenções. Também tem sido usado criativamente para organizar lugares, como na série de livros Um dia na vida (de um determinado país). Funciona com exposições, museus e histórias, seja de países ou empresas. O projetista Charles Eames criou uma exposição sobre Thomas Jefferson e Benjamin Franklin apresentada como uma linha de tempo em que os visitantes podiam ver quem estava fazendo o que e quando. O tempo é uma estrutura facilmente compreensível a partir da qual observar e fazer comparações (WURMAN, 1991, p. 66).

A tabela do IBGE ficaria assim, caso fosse organizada dessa maneira (observe a última coluna):

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A escolha da modalidade para organizar o conteúdo é muito particular de cada projeto, ao observarmos todas as opções acima, talvez os formatos considerados mais fáceis sejam o do alfabeto e o sequencial, porém isso pode ser muito mais pela apresentação visual da tabela, do que pelo conteúdo em si.

Em uma próxima postagem vou explorar brevemente algumas outras opções de apresentações visuais desse conteúdo, usando as mesmas categorias, demonstrando como isso pode contribuir na proposta do fácil, rápido e prazeroso e, também, como isso é influenciado pela definição das metas prévias.

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Esta obra de Heller em Heller de Paula, foi licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.

Referências
FLUSSER, Vilém. O Mundo Codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. São Paulo: Cosac Naify, 2010.
WURMAN, Richard Saul. Ansiedade de Informação: Como Transformar Informação em Compreensão. São Paulo: Cultura Editora Associados, 1991.
WURMAN, Richard Saul. Ansiedade de Informação: Um Guia Para Quem Comunica e Dá Instruções. São Paulo: Editora de Cultura, 2005.
DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO. Website do Diário Oficial da União. Disponível aqui. Acesso em 29 de ago. de 2013.

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