Yayoi Kusama: Todos sofremos de obsessões infinitas, qual é a sua?

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Yayoi Kusama

Nossa sociedade contemporânea, principalmente desde a proliferação dos smartphones com conexão constante, parece ter diluído tanto a capacidade de manter o foco que aparentamos todos sofrer do Transtorno do Déficit de Atenção, ou seja, manter o foco em uma coisa só já é impraticável e, em breve, será deselegante.

E é neste cenário que o Instituto Tomie Ohtake trouxe para São Paulo a exposição da artista nipônica Yayoi Kusama organizada sob um título que não poderia ser mais provocativo: Obsessão Infinita.

Bom, o que seria a obsessão senão um foco estremado em algo específico? Claro, que no caso da artista, podemos atribuir a obsessão às famosas bolinhas que preenchem suas obras e sua forma de enxergar as coisas ao seu redor.

Ela, que sofre de esquizofrenia, tem uma visão distorcida do mundo que a faz ver essas bolinhas em todos os lugares, mas podemos assegurar que nossa visão de mundo é menos obsessiva?

A notícia da exposição foi largamente anunciada na cidade mais populosa do Brasil, e, tendo a entrada gratuita, já é possível imaginar a dificuldade de se locomover entre os espaços da exposição que se tornou um sucesso de público.

Mas para quem esteve lá, viu que o problema não era brigar por um espaço em frente aos lindos quadros e estudar a composição visual, a textura ou outros. O complicado mesmo era dar dois passos sem trombar em alguém fazendo uma pose sensual ou sair em uma foto selfie que tinha como fundo os painéis e as bolinhas da Yayoi.

Em parte, até concordo que os quadros de Yayoi são melhores fundos do que o azulejo do banheiro e o sanitário destampado, mas o que eu vi foi um abandono imediato da obra depois de seu uso meramente ilustrativo. E isso sim foi triste.

Mesmo que a foto seja utilizada para um estudo mais profundo da obra mais tarde, penso que nada substitui a obra em si, ali presente para você como esteve em algum momento para a própria artista.

Esse momento de observação, onde você se conecta com a obra e a artista, é algo maravilhoso, é um dialogo mudo construído dentro da mente e com todos os seus sentidos.

Por exemplo, as obras que consegui interagir por alguns minutos a mais sem atrapalhar as seflies alheias, me passaram tanta emoção que realmente só a presença física poderia causar.

A forma, o equilíbrio visual assimétrico, as cores fortes unidas em construções provocativas realmente te levam para um infinito além dali e brincam com sua percepção, criando a ilusão de movimento e até certa vertigem diante da profusão de cores vivas, por isso cuidado ao olhar por muito tempo para algumas delas.

Mas dada a experiência como um todo, saí da exposição me questionando sobre qual seria minha obsessão infinita, que, podendo ser menos visual que a de Yayoi, pode estar me influenciando a interpretar o mundo com minha própria visão destorcida.

Claro que para fugir de uma possível obsessão por este pensamento, fiz logo um selfie sensual focando no que realmente era importante: mil likes [sic].

E assim saí dali repleto de bolinhas e de infinitos selfies.

Referências
Samuel de Paula Website; Instituto Tomie Ohtake; Yayoi Kusama Website;

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